No tratamento industrial de águas residuais não existem dois efluentes iguais. A composição da água varia consoante o setor, o processo e, dentro do mesmo cliente, a linha de produção que esteja em funcionamento naquele dia. Por isso, na J. Huesa partimos sempre de uma análise prévia: caracterização da água bruta, estudo do processo produtivo e revisão dos objetivos de descarga ou reutilização antes de propor qualquer tecnologia.

É esta forma de trabalhar que nos leva a executar projetos chave-na-mão muito distintos entre si — desde uma multinacional de Omega 3 na Galiza até uma rede de lavandarias distribuída por Espanha, Portugal e Andorra — com a mesma metodologia, mas com instalações que praticamente não se assemelham.

O laboratório decide antes da engenharia

Quase todos os projetos começam com amostras sobre a mesa e não com desenhos técnicos. No caso do cliente de Omega 3, antes de dimensionar qualquer solução, foram realizados ensaios Jar-Test com misturas sintéticas dos três tipos de efluentes do processo, comparando dois cenários: com fósforo e sem fósforo. A partir daí foram definidas as dosagens e os reagentes do tratamento físico-químico, bem como os dados finais de projeto (média das amostras acrescida de um fator de segurança).

Imagem de um dos ensaios realizados em laboratório

Na lavandaria industrial, a abordagem inicial foi diferente. Foi inicialmente ensaiado um tratamento direto do efluente através de membranas cerâmicas de ultrafiltração precedidas de coagulação. Funcionava, mas gerava uma rejeição na ordem dos 10 %, com uma carga orgânica que aumentava significativamente os custos de gestão. Assim, o Centro de I&D+i da J. Huesa alterou a abordagem e instalou duas unidades piloto MBR em paralelo, uma com membranas submersas e outra com membranas tubulares externas, para comparação em condições reais durante várias semanas. Resultado: mesma qualidade analítica em CQO, CBO5 e tensioativos, mas as membranas submersas necessitaram de três limpezas e as externas de nenhuma. A decisão acabou por ser evidente.

membranas sumergidas

Reator MBR com membranas submersas

No projeto da indústria biotecnológica, o piloto prolongou-se durante vários meses e foram tratados 12 lotes distintos de alimentação, precisamente porque o objetivo era reutilizar a água dentro do próprio processo produtivo (política de descarga zero) e era necessário validar o comportamento do MBR perante uma alimentação variável antes da passagem à osmose inversa.

Quando entra cada tecnologia

Cada solução é concebida a partir de uma combinação específica de tecnologias — pré-tratamento, flotação DAF, tratamentos biológicos, etapas de polimento e gestão de lamas — adaptada à carga
poluente, à variabilidade do efluente e ao destino final da água tratada.

Para o cliente de Omega 3 instalámos uma ETARI com 17,35 m³/dia de caudal total (0,625 m³/h de processo mais o contributo do CIP), com uma caixa de bombagem de 27 m³ que funciona como tanque de homogeneização, câmara de redução sem fósforo e, simultaneamente, permite arrefecer a água — que chega quente do processo — antes da entrada no tratamento biológico. Em seguida, um sistema DAF com as suas três etapas (coagulação, neutralização e floculação), responsável pela remoção da maior parte dos sólidos, óleos e gorduras, deixando apenas a carga residual para o MBR de membranas tubulares externas. Posteriormente, linha de lamas com parafuso desidratador e polieletrólito. Todo o sistema foi dimensionado para cumprir os limites de descarga para saneamento público definidos no Boletín Oficial de la Provincia da Corunha.

Arqueta de homogenización

Vista da câmara de homogeneização

Na lavandaria, a linha é mais simples: tanque de homogeneização (com correção de pH por adição de HCl), bateria de filtros de anéis com abertura de 0,200 mm e limpezas automáticas por ar comprimido, e um reator biológico de 182 m³ brutos construído em painéis pré-fabricados de aço inoxidável AISI 316. Caudal médio de projeto: 150 m³/dia, com ponta de 6,25 m³/h. Mais uma vez, membranas tubulares externas — desta vez não por exclusão de partes, mas porque o piloto o tinha demonstrado.

sistema filtacion anillas

Sistema de filtragem de anéis

O projeto da indústria química acrescenta uma etapa adicional: após o MBR, uma etapa de polimento com osmose inversa permite ao cliente reincorporar a água no processo produtivo. O permeado passa por um filtro de carvão ativado em PRFV antes da osmose, e a água tratada é armazenada num depósito fechado, também em PRFV, a partir do qual o cliente utiliza a água. A instalação foi concebida deixando o segundo passo de osmose pré-instalado, mas não operacional, de forma a validar primeiro o desempenho real antes de utilizar toda a capacidade instalada

osmosis inversa

Vista do tratamento de águas residuais

Porque é que o MBR surge tantas vezes

Nos três projetos, o MBR acaba por estar presente — e não por tendência. Quando o efluente é biodegradável e apresenta variabilidade, a combinação de tratamento biológico com clarificação por
membranas produz uma água ultrafiltrada estável que, no caso da lavandaria, é descarregada em meio recetor público e, na indústria química, alimenta diretamente a osmose sem necessidade de prétratamento adicional. As membranas tubulares externas, face às submersas, apresentam consistentemente melhor desempenho ao nível do fouling: o piloto da lavandaria mediu-o através do
número de limpezas necessárias durante a mesma janela operacional e, desde então, passaram a ser a nossa opção de referência para efluentes com composição variável.

Reutilizar, não apenas descarregar

Quando o cliente pode considerar o fecho do ciclo, o tratamento deixa de ser um custo e passa a integrar o próprio processo produtivo. Foi isso que fez a empresa biotecnológica do caso anterior: a água que anteriormente era descarregada regressa hoje ao processo após o MBR e a osmose, dentro da sua política de descarga zero. Nem todos os clientes se encontram nesta situação — em muitos casos o objetivo continua a ser cumprir os limites de descarga para saneamento —, mas quando a qualidade e o caudal o justificam, a osmose inversa a jusante do MBR é a combinação que melhor se adapta.

O que entregamos

Um projeto chave-na-mão da J. Huesa abrange todas as fases, desde os ensaios laboratoriais e o pilotagem até ao fabrico próprio, montagem, arranque e assistência técnica posterior. As instalações são entregues totalmente instrumentadas (válvulas automáticas, pressóstatos, caudalímetros, sondas de pH e condutividade, etc.) e comunicadas com o autómato através de IO-Link nos projetos mais recentes. Os quadros elétricos incluem ecrã tátil para operação e são concebidos para integração no SCADA do cliente, com sistema de controlo remoto sempre que a exploração o exige.

Em termos gerais, é desta forma que abordamos cada projeto. A tecnologia muda. O método, não

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